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Blog EntryJun 16, '08 5:05 PM
for everyone

O relato está maior porque foi um bombardeio de emoções.

 

Ao 12:30hs do último sábado, a Praça do Ciclista na Av. Paulista, estava lotada. Abarrotada de ciclistas, policiais, curiosos, jornalistas e firuleiros da grande mídia, a concentração da versão paulistana do World Naked Bike Ride aconteceu de forma, no mínimo desconfortável, para quem estava ali para seguir a proposta e clamar respeito e atenção dos motoristas e do planejamento urbano de São Paulo.

Os mais de 300 manifestantes deixaram a criatividade rolar solta e decoraram seus corpos nus e semi nus com desenhos coloridos e dizeres também cheios de cor. A pele dos ciclistas refletia mensagens do tipo: PROTEJA; VÁ DE BIKE; CUIDADO: FRÁGIL; RESPEITO.

 

Já nesses momentos pré pedaladas, certos jornalistas da grande mídia, com algumas excessões, abordavam os participantes impondo suas câmeras e comentários variados, uns em tom de deboche, outros com conotações sexuais desrespeitosas, poucos realmente interessados nas razões dos ciclistas. Mas isso não tirou a energia daquelas pessoas.

Em um clima de ansiedade de podermos, finalmente, nos libertarmos dali, e voarmos com as nossas magrelinhas, às 14:00hs do sábado ensolarado, a pedalada começou.

Nenhum ciclista estava completamente nu no início, com excessão de Renata Falzoni, que numa lição de alegria e cidadania despiu-se e lavantou sua bicicleta, homenageando a manifestação.

(Foto: pollyrosa)

Em princípio, o trajeto definido em grupo foi percorrermos a Av. Paulista. Logo nos primeiros instantes, pedalar foi difícil. A massa não conseguia seguir, tamanho o número de fotógrafos, que se postavam no meio das faixas que tentávamos percorrer.

Mas isso não abalou a alegria dos ciclistas que puderam, em pouco tempo, pedalar com mais fluidez e energia! Éramos uma massa escoltada pela polícia, que veio preparada com carros, motos e bicicletas (!!!), e fazendo um barulho incômodo e insistente das sirenes ligadas.

Sob o sol delicioso do sábado à tarde, os ciclistas seguiram a pedalada regada a cantorias, gritos e gargalhadas... E então, pouco a pouco, homens e mulheres foram se despindo total ou parcialmente.... numa energia contagiante que ecoou pelas calçadas, infiltrou os automóveis, deixou marcas de admiração e alegria nos rostos de quem por ali passava!

A cantoria era geral. Os pedalantes convocavam as pessoas nas ruas, a buzina dos motoristas.... "VOCÊ AÍ PARADO, VEM PEDALAR PELADO!", "QUEREMOS CICLOVIA!!" E eram recebidos com sorrisos e olhares curiosos. As pessoas nos apontavam e sorriam! Assim, a tarde de sábado prometia se desenrolar num protesto lúdico e pacífico.

Entre os ciclistas, o comportamento era de respeito, de cumplicidade. Porém, o que houve a seguir, foi uma covardia.

Da polícia, com uma atitude completamente desnecessária, em meio a empurrões e sprays de pimenta, prendeu um dos ciclistas, que não tomava nenhuma postura ofensiva ou agressiva diante de ninguém. Disseram que o problema era ele estar nu. Não! Foi levado à força porque foi considerado um dos líderes... de uma manifestação horizontal.

(Foto:pollyrosa)

De acordo com a grande mídia, o ciclista teria sido preso por ser o único a estar nu. Ele foi o sim único.... a ser preso. A cena foi de secar a garganta. A polícia chegou a afirmar que a bicicleta era uma arma (???). Em momento algum, nossas magrelinhas foram usadas como tal. Como podiam se elas eram tão lindas e estavam tão felizes? Mais pareceu um discurso pré planejado...

Quem mentiu? (Foto:pollyrosa)

Debaixo de vaias veementes, a polícia levou ciclista, ainda nu, à delegacia da rua Estados Unidos (leia o relato completo de André Pasqualini). A revolta diante da covardia foi geral.

O fato é que o comportamento agressivo da polícia conseguiu atrapalhar o curso das coisas. Uso (novamente, desnecessário) de spray de pimenta, de cacetetes nos ciclistas e de ameaças verbais... As pessoas ficaram assustadas e revoltadas.

 

 Violência policial desnecessária (foto: André Penner/AP)

Ameaçados pela polícia, manifestantes nus vestiram-se e seguiram pedalando. Mas os gritos deixaram de ter cor, os semblantes tornaram-se amargos, preocupados, tristes. E a massa resolveu apoiá-lo e seguir para a delegacia, pedindo a libertação de André.

Na delegacia, estávamos em grande número também (cerca de 100 ciclistas).  Novamente, a polícia recebeu vaias e brados, todos com uma postura muito mais educada do que a tomada por policiais na Av. Paulista. "LIBERTA NOSSO AMIGO"; "O DELEGADO, LIBERA O PELADO"; 'PIMENTA É NA COMIDA". Em breve, as notícias de que André Pasqualini seria solto, que estava bem e acessorado acalmaram os ânimos. Esperançosa, a massa decidiu retornar à Praça do Ciclista e completar o passeio de manifesto.

 

(Foto: Gustavo Henrique)

O sol ainda estava quente quando retornamos, subindo a Augusta e retomando o espaço público que também nos pertence. Arriscamos algumas cantorias. A covardia ainda calava. Mas a certeza de termos pedalado adiante com nossos sonhos e objetivos acabou por libertar a voz.

A repercussão foi grande e apesar do susto que passamos, de certas versões da mídia tradicional e dos políciais (de novo, quem mentiu?), conseguimos fazer nosso barulho, gritar por direitos. Nos fizemos ouvir. Queremos RESPEITO. Demonstramos que não somo poucos. Que os números de ciclistas só crescem. Foi um ganho para o cicloativismo.

Só de chegar no sofá do paulistano notícias sobre ciclistas vez ou outra.... que inauguram pontes, que pedalam pelados, que estão por aí.... E nossa! Tem mesmo pedalantes em São Paulo! Pára pra olhar!! Vi uns 5 ontem!!

 

(Foto: Gustavo Henrique)

Suados, cansados, EX-TA-SI-A-DOS e aplaudidos, retornamos à Praça. Para um merecido descanso. E, para quem gosta, uma merecida cerveja. Afinal de contas, o ciclista foi solto, nosso chamado ecoou e estávamos em paz.

 

(Foto: Falanstérios)

Quanto mais se olhar, mais se irá ver.

 

Fotos: http://tessie27.multiply.com/photos/album/12

Video: http://tessie27.multiply.com/video/item/12

Saiba mais:

O que realmente foi, pelos participantes: http://nakedwiki.org/index.php?title=Carta_sobre_o_WNBR_2008


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marciocampos013 wrote on Jun 16, '08
Oi, bela menina que voa. Em suas palavras percebi sua emoção incontida. Indescritível como esse grupo pensa coletivo, converge nas idéias e sentimentos. É como se olhássemos todos na mesma direção, mesmo sentido, e só nós já víssemos algo muito melhor lá a frente, e embora gritando e sorrindo para que todos percebam também, muitos deles nada vêem ainda. Mas é impossível não persistir, todos merecem o que já vemos. Ser parte do nascimento da boa mudança é o belo e o sublime do viver.
Já que falei em beleza, o leve vôo feminino pela mais famosa avenida de São Paulo congelou ali o tempo para mim, quisera pudesse ser competente poeta e descrever com justiça toda a delicadeza que os meus olhos viram. Então sigo nesse silêncio, mas os olhos marejam, me entregam.

Abraços a todos que, sem palavras, apenas doam um olhar.

Márcio Campos
falansterios wrote on Jun 17, '08
Maravilha menina!!!

Texto emocionante!!!

Bjs
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